Relatos, Reminiscências & Pitacos



 

 

 

 

 

 

 

 

Capital peculiar no Velho Continente, Amsterdã é uma cidade que dificilmente pode ser traduzida por meio de cartões postais. Não possui um monumento marcante, como a Torre Eiffel, em Paris, por exemplo. Não possui arranha-céus e nem grandes e famosas avenidas. Apesar de situar-se na costa, não possui praias e nem outras grandes belezas naturais. E ainda assim, Amsterdã é uma das cidades mais belas, cativantes e charmosas do mundo. Seria por suas mais de 1.200 pontes? Seria por seus inúmeros e magníficos canais navegáveis? Ou seria pela incrível atmosfera de liberdade?

A maior cidade e também capital da Holanda, Amsterdã tem hoje, cerca de 740.000 habitantes. O nome Amsterdam significa algo como "represa (dam, em holandês) do rio Amstel", rio que corta a cidade. O ano oficial da fundação é 1275, porém, desde muitos séculos antes, o local era ocupado por pescadores. Foi a partir do século 14 que a cidade despontou como importante centro comercial da Europa medieval. Formou, juntamente com outras cidades holandesas e de outros países da Europa, a Liga Hanseática, uma forte aliança comercial que marcou a passagem da Idade Média para a chamada Idade Moderna.

No século 16, teve início o conflito entre os holandeses e espanhóis. Esse confronto gerou uma guerra de 80 anos que culminou com a independência da Holanda, que antes era subvencionada ao domínio espanhol. Depois da ruptura com a Espanha, país eminentemente católico, a república holandesa foi ganhando fama por sua tolerância às diferentes religiões. Entre outros, buscaram refúgio em Amsterdã, judeus de Portugal e Espanha, muçulmanos da Antuérpia e calvinistas da França. Com a liberdade de cultos, Amsterdã começava sua história de respeito à liberdade individual, certamente a maior característica da cidade.

E é em busca dessa sensação de liberdade que muitos turistas procuram refúgio em Amsterdã. Afinal, a cidade, há décadas, possui uma política liberal em relação ao uso responsável e consciente de drogas. É também uma das poucas cidades do mundo onde a prostituição é legalizada e controlada pelo Estado. Outro fator que contribui para aumentar a sensação de liberdade é a forma de locomoção em Amsterdã. A cidade é repleta de ciclovias e, dos mais de 740.000 habitantes, mais de 600.000 são usuários de bicicletas. Para todas as direções que apontam nossos olhares, vemos bicicletas. E não há limite de idade, crianças, jovens, adultos e idosos desfrutam do mesmo meio de transporte. Há mulheres que andam de saias e salto alto, alguns homens pedalam de terno. Eles têm uma prática incrível, mesmo com sacolas de compras os holandeses conseguem se equilibrar bem no veículo.


 


 

 

 

 

 

 

 


Para se ter uma idéia da importância das bicicletas em Amsterdã, o estacionamento da Estação Central comporta incríveis 8 mil "magrelas"! Nas ruas, todo trânsito está adaptado para o tráfego das bicicletas; há ciclovias de mão-dupla e até sinaleiras especiais. Aos pedestres é necessária atenção redobrada. Atravessar a rua é um exercício de cidadania, é preciso estar atento aos carros, bondes e, é claro, às muitas bicicletas. Nas curiosas leis locais, as bicicletas têm preferência em relação ao pedestre. Quando um gaiato desavisado atravessa a rua e não vê uma bicicleta, os ciclistas tocam um sino ou uma buzina para alertar. Além do evidente ganho ambiental (já que as bicicletas são silenciosas e não poluem), há o ganho em qualidade de vida. O porte esguio e atlético dos moradores de Amsterdã vem do diário e habitual convívio com as bicicletas.



Escrito por Diego às 19:15:26
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FONTANA DI TREVI: AS ÁGUAS VÃO CONTINUAR ROLANDO

 



 

 

Fellini eternizou o seu encanto em "La Dolce Vita" ao usá-la de cenário em uma das cenas mais memoráveis do cinema, protagonizada por Marcello Mastroianni e Anita Ekberg. Os turistas também a adoram e todos os dias, centenas deles, vindos de todos dos cantos do planeta, lançam moedas em suas águas na esperança de um dia retornar à Cidade Eterna. Estamos falando da Fontana di Trevi, considerada um dos mais belos monumentos históricos do mundo.

Tanto prestígio, no entanto, não poupou a fonte de incautos funcionários de uma construtora. Contratados por empresários de supermercados para edificar um estacionamento subterrâneo, os trabalhadores, ao se depararem com um fluxo de água, ergueram uma parede de concreto em um determinado ponto do canal a fim de dar continuidade à obra. O que os construtores não sabiam é que se tratava do antiqüíssimo aqueduto que alimenta a Fontana di Trevi e outras duas fontes de Roma.

 Descoberto o problema, a prefeitura romana ordenou sua imediata reparação. Mas até lá, para evitar que a fonte seque, os técnicos da companhia municipal de água não descartam a possibilidade de abastecê-la com água potável canalizada. Embora seja a solução mais viável, a medida acabaria com mais de dois séculos de tradição do patrimônio arquitetônico e cultural, sempre alimentado com água pura e cristalina.

Inaugurada em 1762, o monumento foi erguido pelo arquiteto Nicolò Salvi a pedido do papa Clemente XII. Sua historia remonta ao século 19 a.c, quando soldados descobriram uma fonte de água pura nas imediações de Roma. Como sua localização foi indicada por uma jovem garota, a mina logo foi batizado de Aqua Vergine. O general Agrippa foi quem defendeu e pediu a construção do aqueduto ao imperador Augusto. Estas passagens estão esculpidas na fachada da fonte, entre os arcos. Já o espaço central é dominado pela figura do Oceano, esculpido por Pietro Bracci

A tradição de jogar moedas em suas águas foi inspirada pelo filme "A fonte dos desejos", de 1954.  Dirigido por Jean Negulesco, a película americana ganhadora de dois Oscars narra a história de três mulheres americanas que viajam a Roma em férias. Diante da Fontana di Trevi, as protagonistas atiram moedas na esperança de, em troca, conseguirem o homem de suas vidas.

A quantidade de moedas lançadas pelos turistas soma mais de dois mil euros por semana. O montante é destinado a instituições de caridade e organizações não-governamentais, mas nem sempre é assim. Quatro funcionários responsáveis por sua limpeza foram presos há dois anos suspeitos de terem desviado mais de dez mil euros. Também houve o caso de um desempregado que, durante anos, tirou parte de seu sustento de um dos principais cartões-postais de Roma. Roberto Cecelleta mergulhava todos os dias pela manhã na fonte e recolhia o equivalente a 600 reais por dia. Escapou da prisão e das multas por ser desempregado e sem-teto.

Além de Fellini e Negulesco, outros cineastas registraram a exuberância da Fontana di Trevi em seus filmes. Willian Wyler, é um deles, que gravou "Férias em Roma", com Audrey Hepburn e Gregory Peck. "Sabrina vai a Roma", de Tibor Takacs, "Nos que nos amávamos tanto", de Ettore Escola e "Elsa & Fred – Um amor de paixão", de Marcos Carnevale, são outros que ambientaram suas histórias na célebre fonte.

Fotos: Marina Kuzuyabu



Escrito por Diego às 16:11:09
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Leeds

 

Já faz dois dias que está nevando lá fora. Para nós brasileiros a neve é sempre algo fascinante. Leeds é legal. O centro é sensacional. A cidade tem cerca de 750 mil pessoas e – pasmem – 1276 anos! A primeira menção à cidade, quando ainda era chamada de Loidis – data do ano de 731. Tirei essas informações do site oficial da cidade.

 

A cidade hoje vive de comércio (muito abundante), serviços e estudantes. Tem duas grandes universidades, a Metropolitan e a Leeds University, onde minha mãe está estudando. Além dessas duas universidades, há ainda outras faculdades.

 

E não é que estávamos andando na rua e encontramos com o pessoal do Cansei de Ser Sexy? Inacreditável! Estava o Adriano, a Luisa Lovefoxxx e outra doida que eu não sei o nome. Chamei a Lovefoxxx e perguntei onde seria o show deles. “Aqui”, respondeu. Estávamos em frente ao Met Bar, que o bar/pub/casa de shows da Metropolitan University. Isso era mais de 6 da tarde, o show começaria às 7, e o pessoal do Cansei estava procurando um táxi. Entraram no táxi e nós entramos no Met Bar. Sold out! Perdemos a chance de ver CSS, The Klaxons e outra banda que tocaria naquela noite. O CSS está com moral aqui, estão sendo patrocinados e divulgados pela New Music Express, que é a bíblia pop da Inglaterra.

 

Cansei de Ser Sexy em ação



Escrito por Diego às 16:18:04
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One for the road, a saideira

Em Londres em peguei um jornal e dei uma olhada na programação dos cinemas. Estão passando praticamente os mesmos filmes que estão em cartaz em São Paulo, um ou outro que ainda não estrearam no Brasil. Dentre eles, destaca-se o Rocky Balboa. Isso mesmo, o Rocky está de volta. A micro resenha do filme era hilária, “desperdício de tempo e dinheiro... o primeiro filme da série onde o Stallone está mais feio antes do que após as lutas”. Lembrando que este é o Rocky VI e o Stallone já tem mais de 60 anos...



Escrito por Diego às 11:13:17
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Chegamos!

 

“Parece Marília!” – essa foi a frase da Marina ao vermos Leeds se aproximando na janela do trem. Foram mais de 24 horas de viagem do Brasil até aqui. Saímos da casa da Marina as 18h00 e, partimos para o aeroporto internacional de São Paulo, digo, Guarulhos. A viagem começou a cansar logo na marginal lotada, barulhenta e fedida. Horror, horror.

 

Lá em Cumbica, o protocolar. Fila pro check in, banheiro, café de R$ 4,00, despedida bem brasileira – com direito a lágrimas nos olhos e aperto nos corações – e pronto. Entramos no Ibéria rumo à Madrid. O vôo deu suas chacoalhadas habituais, a comida foi ruim, mas o vinho foi descente. Chegamos em Madrid e, é claro, nosso vôo para Londres estava atrasado. Ficamos matando o tempo por quase três horas entre os free shops e as longas esteiras rolantes de Barajas.

 

Já no avião da British Airways, as aeromoças – na real, eram aerovelhas – eram mais simpáticas e o vôo foi muito, muito rápido. Não pregamos os olhos de tão ansiosos. Aproximamos-nos de Londres com muito sol e a descida foi sensacional. Vimos o rio Tamisa, a London Eye, o Palácio, o enorme Hyde Park e o centro todo. Uma visão emocionante e inesquecível.

 

Havia várias cabines e vários funcionários na imigração. Eu torcia desesperadamente para cair com o funcionário negro ou com a muçulmana. Pensava que eles poderiam ser mais receptivos com brasileiros e estrangeiros em geral. Estava certo, pois as pessoas que eles atendiam passavam rapidinho. Mas é claro que na nossa vez caímos com o típico burocrata inglês, um gordo branquelo de cara amarrada. Ficamos uns 15 minutos sendo interrogados por ele, num clima de muita tensão. O cara nos pediu até para mostrarmos nosso dinheiro. Foi muito foda! Eu via todo mundo entrando com facilidade, mas nós demoramos.

 

Enfim, entramos. Putos da vida, mas entramos. Pegamos o metrô para a estação Kings Cross, de onde sairia nosso trem para Leeds. Lá nos deixamos nossas mochilas guardadas e saímos para andar a pé por Londres. Andamos pacas sob um frio intenso. Londres é realmente muito legal, não vejo a hora de voltar para lá. Ainda estou estranhando o sotaque deles, tenho que acostumar meus ouvidos. E eles também não fazem muita questão de entenderem meu inglês tupiniquim mal ajambrado aprendido em Pittsburgh. Por exemplo, para dizer “city”; se eu falo “ciri” eles não entendem; tenho que falar “citi”, com o “ti” de Piracicaba. Outro exemplo, melhor, para falar “little”, tenho que dizer “litol” e não a pronúncia americanizada “lirol”, e assim por diante.

 

Estávamos cansadíssimos e dormimos a maior parte da viagem de trem. O momento mais interessante foi quando, logo após sair da estação, o trem passou na cara do Fly Emirates Stadium! Foi inesperado e bem legal, até porque Brasil X Portugal estavam jogando naquele exato momento. O estádio estava todo iluminado e assusta de tão grande e bonito. Suas paredes são todas de vidro, e dá para ver as pessoas se movimentos em baixo das arquibancadas.



Escrito por Diego às 11:02:52
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ELEGANTE REPÓRTER DE RUA

Jornalista, escritor, teatrólogo, crítico. Um dândi ou, diriam hoje, metrossexual. Modernizou linguagem, estilo e temática. Atual, sempre.

Por Diego Braga Norte

Começo do século 20. O Rio de Janeiro passa por transformações. A República engatinha. Bondes, carros e obras urbanas implantadas pelo prefeito Pereira Passos mudam a paisagem: o Rio se moderniza.

No burburinho da capital ansiosa por novidades, João do Rio lança em 1908 A Alma Encantadora das Ruas. Descortina a cidade multifacetada. Novas relações sociais e novos tipos proliferam. Talvez tenha sido este o maior mérito de João do Rio, o convívio com as ruas para delas extrair matéria-prima para seus textos. Da mais elegante, a Rua do Ouvidor, às suburbanas, lúgubres. Com aguçado senso de repórter, flana desenvolto por todas – afinal, João é “do Rio”.

REPÓRTER INOVADOR

João Paulo Alberto Coelho Barreto, o João do Rio, nasceu a 5 de agosto de 1881. Filho de professor, fez estudos elementares com o pai. Inicia-se no jornalismo aos 17 anos, em revistas de pequena circulação. Chama a atenção. Passa a colaborar no jornal Cidade do Rio, dirigido por José do Patrocínio.

Na Gazeta de Notícias, conquista fama e prestígio. A maioria dos jornais cultiva sotaque lisboeta, linguagem empolada. João do Rio traz modernidade ao jornalismo. Suas reportagens repercutem. Com linguagem ágil e ritmo trepidante, apresenta informações de forma fácil, carioca e universal. Seus escritos se ambientam em ruas, bares, bordéis, carnavais, candomblés. Dizia que sua obra só poderia ser entendida mais tarde, reflexo tumultuário de transformações [...] em todos os seus aspectos morais, mentais, políticos, sociais, mundanos, ideológicos e práticos – a vida do Rio.

Fez a opção, como diria o escritor João Antônio, pela “raça miúda”. Prostitutas, operários, ambulantes, criminosos, fumadores de ópio, cafetões e outros tipos notívagos compõem a fauna que ele retrata. Cenários e personagens chocavam. Com os temas não poderia ser diferente: neuroses, perversão sexual, frenesi, medo, delírio.

DÂNDI E IMORTAL

Indivíduo que se veste e comporta com afetação e delicadeza, define o Dicionário Houaiss no verbete dândi. Hoje diriam metrossexual, termo criado em 1994 pelo escritor inglês Mark Simpson: homem que se vale das facilidades das metrópoles para esmerar-se no trato pessoal, independente de sua orientação sexual. João do Rio veste-se com apuro. Gestos cênicos, ar indiferente a todos em volta, centro das atenções. Não nega nem confirma boatos sobre a vida íntima. Conquista admiradores e inimigos com a rapidez da efemeridade urbana. Nas grandes cidades a rua passa a criar o seu tipo, a plasmar a moral dos seus habitantes, a inocular-lhes misteriosamente gostos, costumes, hábitos, modos, opiniões políticas, escreveu numa reportagem. Com suas observações, definia aos outros e também a si mesmo. Mestre na arte de “ver e ser visto”, convivia em influentes círculos sociais. Transformou-se em personagem de si mesmo.

Escreveu contos, crônicas, reportagens, um romance e duas peças teatrais. Em 1910, depois de muitas divergências, entrou na Academia Brasileira de Letras. Considerado por estudiosos precursor da crônica e da reportagem modernas, morreu precocemente em 26 de junho de 1921, aos 40 anos: ataque cardíaco. Figura oblíqua da nossa literatura, sua obra permaneceu esquecida por décadas, mas vem reconquistando seu lugar. Disse que escrevia por fatalidade: Fatalidade duplamente cruel porque nela vivo na ansiedade insatisfeita, porque com ela nasci num país onde o respeito aos homens que escrevem quase não existe.

SAIBA MAIS Melhores Contos, de João do Rio (Global, 2001); Dama do Encantado, de João Antônio (Nova Alexandria, 1996).



Escrito por Diego às 15:39:40
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Eu, terrorista

 

Saí do trabalho animado. Noite boa, temperatura agradável. Encontrei-me com o amigo Pedrão e partimos para o Pacaembu. Duas paradinhas e algumas cervejas depois, nós já estávamos no estádio. Quando fomos entrar, passávamos pela habitual revista e o PM pediu para eu abrir minha mochila. Até aí, tudo bem. Ele está cumprindo o dever dele; zelar pela segurança de todos. "O que é isso?", perguntou-me grosseiramente. Provavelmente, ele nunca tinha visto um objeto daquele. "É um livro", respondi. "Livro? Não vai poder entrar. Não pode entrar com livros!". Vejam só! Fiquei perplexo! Tentei argumentar e disse que eu não ia atirar o livro em ninguém, era material de trabalho, coisa e tal. Nada. A sacrossanta glória da burrice não me permitiu entrar. Isqueiro, batuques, garrafas, paus e pedras podem passar, livros não. Afinal, livros são perigosos, fazem as pessoas pensarem. Refletirem. Tem outra, ao invés de acompanhar o jogo, eu poderia muito bem sacar meu livro e... ler! Realmente uma ameaça, a leitura.

 

Pois bem, mudei de fila. Pedrão já estava lá dentro me esperando. Chego novamente na revista. Fui barrado outra vez!. O mesmo inacreditável motivo. "Livros não podem entrar!". Daqui a pouco, do jeito que as coisas andam, vão perguntar: "Você sabe ler?" Se a resposta for afirmativa, um truculento PM vai impedir sua entrada. Mais uma vez, ainda tentei dialogar. Parece-me que os PMs não sabem fazer isso, dialogar. Entrei na terceira e última fila da revista e finalmente consegui entrar com o livro proibido. Pode?

 

Outro dia eu li no blog do Mário Bortolotto – um escritor, essa profissão perigosíssima – que um amigo dele foi preso por estar vendendo... livros! O cara tinha uma banca de livros usados, teve seus produtos apreendidos e foi em cana! Livros! Tudo porque ele não tinha "autorização oficial" para trabalhar no local. Livros são proibidos. E enquanto isso, nosso país continua na mesma merda de sempre. Proporcionalmente, há mais livrarias em Paris do que no Brasil todo. É um fato. Buenos Aires tem cerca de 5 milhões de habitantes. São Paulo tem mais ou menos 18 milhões. E lá na capital Argentina tem mais livrarias e bibliotecas do que em São Paulo. É por essas e muitas outras que nosso país seguirá na merda por muito tempo.

 

O jogo? O primeiro tempo foi muito bom. O Timão marcou dois gols, mas só um valeu. Perdeu algumas chances e 1X0 foi pouco. No segundo, o time voltou covarde e sonolento. Mesmo assim, jogando contra uma equipe fraquíssima da zona de rebaixamento, o Corinthians ainda criou bons contra-ataques, mas não soube matar o jogo. No final, quando o time estava em seu melhor momento e pressionava o Atlético-MG, o técnico Márcio Bitencourt tratou de frustrar os mais de 20 mil que foram ao Pacaembu. Friamente, o que funciona melhor, a defesa ou o ataque corintiano? Não precisa ser gênio para saber que não dá para confiar na defesa do Corinthians. Márcio sacou Roger e Eduardo para botar o péssimo Wendel e o limitado Wescley. Pediu para tomar o gol de empate; implorou. O castigo veio com um  terrível gosto amargo. No final, os gritos de "burro" ecoavam no Pacaembu. Fiquei sem saber se eram pro Márcio, ou se eram pros PMs.



Escrito por Diego às 09:47:16
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Eles são quase todos Silva

 

Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém.

Juramento de Hipócrates

 

Quando a médica chegou lá era ainda bem cedo, por volta das sete da manhã. O sol acordara com força e já dava sinais que o dia seria quente. O paciente da vez, um menino de 11 anos, estava estirado na calçada. Não, ele não estava agonizando e seu problema não era assim tão sério. Sono mesmo. A avó esperava em pé, sem se importar com o garoto esparramado com a cara no chão.

 

Eram pobres. Muitos desses meninos são criados com os avós. O roteiro da tragédia é fácil de imaginar: mãe pré-adolescente, desempregada, pai desconhecido. Ou então, pai alcoólatra e mãe depressiva. Poderia ser pai falecido, tiro é claro, e mãe ausente. Mãe morta no parto, pai desconhecido. Pai preso e mãe prostituída. Pouco importa, são apenas variações sobre o mesmo tema. O final é sempre o mesmo: neto que sobra para os avós criarem como filhos.

 

A consulta correu tudo bem. Em dois dias o menino estaria na mesa de cirurgia. Iriam operar sua boca e garganta, não sei ao certo. Fato é que o paciente respirava com muita dificuldade. Procedimento de rotina, fácil. Mais não, nunca é fácil. O menino tinha um problema raro em seu sangue, teria que ser internado com um dia de antecedência para receber uma transfusão. Preventiva, ou necessária, não sei ao certo. Escutou toda a conversa entre sua avó e a médica sem ao menos alterar seu semblante. Internação, transfusão, agulhas, cirurgia, anestesia, injeção. Algumas dessas palavras apavoram qualquer um. Ele aparentava estar tranqüilo. Melhor assim.

 

Chupava chupeta. "Chupeta com 11 anos?", a médica não se conteve. Qualquer relação entre chupeta e carência afetiva não deve ser descartada. E tem outra, tinha orelhas enormes, de abano, bem salientes. Sua auto-estima deveria ser baixa, e dá-lhe chupeta. O Estado não cobre cirurgias estéticas. Falha do Estado, mais uma. Quando o problema estético prejudica o convício social, deveria ser corrigido gratuitamente. O bom senso do Estado deve prevalecer para resguardar o bem-estar das pessoas. Entra o jeitinho brasileiro.

 

Cirurgia corretiva do orifício auricular. Ou então foi: correção no desvio do canal auditivo. Não sei ao certo. Mas só sei que muitas vezes os médicos dão um jeito para burlar a burrice estatal. O garoto teria suas orelhas de abano corrigidas. E sua respiração também. Tomara que tenha dado tudo certo. E tomara que largue a chupeta. Seu nome era Marcos. Marcos da Silva, paciente do SUS. Eles quase todos pobres. Eles são quase todos Silva.



Escrito por Diego às 15:28:34
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A volta da ficção

 

A realidade é tão louca que nem a ficção é páreo para ela. Certos chavões são inevitáveis.

 

Motivos

 

"Mãe, eu quero", era a sexta ou sétima vez que o menino pedia. "Já disse que não", era a sétima ou oitava vez que a mãe lhe negava. O menino guardou a resposta da mãe lá no seu  depósito de rancor e ódio. Lembrou-se da cena escondida num quarto escuro e enfumaçado da sua memória. A amarga lembrança dava-lhe força. "Vai logo, passa essa porra de carteira!". O casal tremia, estavam paralisados. Deu três socos rápidos na cara do rapaz. "Se mexe, seu bosta!." A sua namorada esboçou um grito agudo, mas um tapão na cara lhe calou a boca. Agora ela soluçava e chorava baixinho. Pegou a carteira, os celulares e a bolsa da moça. Caiu fora.

 

Era esperto. Sabia que os apertos e rancores da infância pouco ou nada tinham a ver com sua vida na malandragem. Fazia isso por opção e gosto. Mas era inevitável, buscava a coragem necessária nas memórias tristes. Um artifício que se tornava cada vez mais freqüente. E o depósito de rancor era vasto. Infância sofrida. Pai autoritário e violento. Surras constantes. Seus irmãos todos estudaram e "eram alguém na vida". Ele nunca gostou da escola, a rua sempre lhe pareceu mais interessante. Muito mais. O começo foi com pequenos furtos. Tomou gosto pela coisa e daí para o primeiro 22 e o primeiro roubo à mão armada, foi um pulinho. Pegava mulheres sozinhas, velhos, casais namorando em ruas escuras. Pegava só os "vacilões" mesmo. Era esperto.

 

Nunca gostou de parceria, fazia tudo sozinho, achava mais seguro. O pai o expulsou de casa e ele morava de favor na casa de sua avó. Uma beata que assistia duas missas por dia e no resto do tempo dividia-se entre os afazeres domésticos e os terços. Rádio no Padre Marcelo e tevê na Rede Vida. Achava tudo aquilo um saco. Nunca passou mais que seis meses em um trabalho. Era esperto. Não gostava que lhe dessem ordens e odiava trabalho repetitivo. Empacotador, boy, faxineiro em lanchonete, assistente de cozinha, carregador que galão de água; sua lista de empregos era vasta. Tudo coisa que seus irmãos e sua mãe arrumavam para ele. O pai e a mãe também estavam nessa onda de igreja. Carismáticos. Ele não se envolvia com isso. Era esperto.

 

A apaixonou-se aos 19 por uma atendente de um boteco fuleiro. Foi correspondido enquanto durou a sua grana. Tinha tato com as pessoas do sexo oposto; mas não queria mais ficar preso. Sua profissão era incerta e insegura. Quanto mais sozinho, melhor. Era esperto. "Já disse que não fui eu!", gritava para seu pai. Não adiantava, a fivela da cinta ardia em suas costas. "Foi você sim, seu ladrãozinho de merda!". Tinha 11 anos. A mãe pegara um dinheirinho da carteira do pai para comprar umas coisas no supermercado. O pai não viu; a culpa recaiu sobre o garoto. A mãe, quando voltou, explicou a história. O pai não pediu desculpas. "Aí, seus putos! Me passa a grana!". Nem terminou a frase e o revolver tremeu em sua mão. O casal que estava dentro do carro, era seu pai e um travesti. O travesti estava deitado no passageiro e seu pai estava debruçado sobre ele, sorvendo-lhe as partes. A máscara de meia calça impedia que descobrissem sua identidade. O travesti foi logo entregando a grana. Seu pai disse que iria abrir o porta-luvas para pegar a carteira. Mentira. "Filho-da-puta!", sabia que o seu velho carregava sempre um cano por ali. Firmou o braço e atirou com gosto, com todas as suas memórias transbordando de sua cabeça. Um tiro certeiro, na cara, bem ao lado do nariz. Era esperto. Quando a bala entra naquele local, a pessoa morre em menos de um segundo. Vai direto para o bulbo, na base do cérebro. Caiu fora. No dia seguinte ainda foi ao velório e verteu lágrimas de ódio e alívio. Fez de tudo para que parecessem lágrimas de dor. Era esperto.



Escrito por Diego às 15:29:15
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Notícias de crise VI, estilhaços de uma tragédia

 

Desculpas

Depois de um longo inverno de ausência e descontentamento, de volta aqui eu estou. Peço desculpas à minha meia dúzia (ou nem isso) de leitores. A vida muitas vezes não nos deixa tempo de sequer viver.

 

Quedas

Cai o Rei de Ouros / Cai o Rei de Copas / Cai / Não fica nada... já dizia uma música cantada pela Elis Regina. Depois de Waldemar Costa Neto (PL) renunciar, Roberto Jefferson (PTB) foi caçado e outros dois corruptos também renunciaram, Bispo Rodrigues (PL) e Sandro Mabel (PL). Cai também o presidente da câmara Severino Cavalcanti (PP), que se envolveu num escândalo ridículo com um empresário picareta que detinha a concessão de restaurantes na câmara. Por algumas moedas, muita burrice e muita ganância, perdeu seu trono e seu mandato.

 

Mais quedas e impunidade

Outros ainda deverão ser cassados. E isso é o máximo que deve acontecer, infelizmente. Ninguém vai devolver o dinheiro e ninguém vai para a cadeia. Ninguém.

 

A estrela (de)cadente do PT

O Campo Majoritário – ainda controlado por José Dirceu e Cia. – teve 42% dos votos na eleição interna do PT. Isso significa que eles (leia-se ELE, o Zé Dirceu) vão continuar dando as cartas no partido. Perderam uma grande oportunidade de realizar mudanças profundas. Parece que o PT acostumou-se no poder e mudou. Definitivamente para pior.

 

Crescem as esquerdas

A debandada de deputados, dirigentes e militantes históricos – como Plínio de Arruda Sampaio e Hélio Bicudo – está favorecendo o PSTU e, principalmente, o PSOL. Muitos ex-militantes do PT também estão migrando para as verdadeiras esquerdas. Cuidado com o termo "verdadeiras". O que é verdade hoje, pode não o ser no dia de amanhã.

 

Eleição na câmara

Hoje está acontecendo a eleição na câmara dos deputados. Tudo indica que o candidato do governo, Aldo Rebelo (PC do B), e o mais forte da oposição, José Thomaz Nonô (PFL), vão para o segundo turno. Aí vai ser um pega pra capar.

 

Entre a cruz e espada

Não tem jeito. A sociedade é refém em uma situação muito incômoda. Vejam bem, se o candidato do governo ganhar, o país poderia sair da paralisia, com aprovação de projetos e real trabalho legislativo. Porém, seria como dar nova chance a um governo que já se mostrou incompetente e corrupto. Aldo Rebelo corre o risco de ser um presidente pizzaiolo, aliviando a barra do governo nas denúncias, apuração e punição.

Já, por outro lado, uma vitória da oposição poderia significar a paralisia total da câmara até o fim do governo Lula. Aí, para as coisas andarem, teríamos a velha ladainha do "toma lá dá cá". Ou seja, se o governo quiser aprovar alguma coisa, vai ter que abrir a perna para um monte de coisas. Estamos entre a cruz e a espada.

 

Aleluia! Aleluia!

No meio a essa lama toda, tivemos uma notícia boa. Maluf está preso! Pensei que não fosse ver isso na minha vida. Ele e seu filho Flávio são acusados de desviarem quase 2 bilhões de reais dos cofres públicos. Isso mesmo, 2.000.000.000!!! Tiveram um Habbeas corpus negado e vão ter muita dor de cabeça no processo. Se a justiça conseguir o ressarcimento de parte da grana roubada, já vai ser uma grande vitória para o povo brasileiro.



Escrito por Diego às 17:21:15
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Notícias da crise – V

 

E ontem foi o tão esperado depoimento do deputado, ex-ministro e todo-poderoso José Dirceu. Ele estava na Comissão de ética como testemunha no caso do deputado Roberto Jefferson, que também estava lá, na primeira fila. Mas, na maior parte do tempo, Dirceu foi tratado como réu e teve que se defender de muitas acusações. Salvo as perguntas feitas pela deputada Ângela Guadaim (?), também do PT e amiga do Dirceu, todas as outras foram para acuá-lo. Sendo que os melhores questionadores foram da oposição, o Goldaman (líder do PSDB na câmara), a bem preparada e esclarecida deputada Zulaiê Cobra (PSDB) e o também preparado deputado Gustavo Fruet (PSDB). O “caliente” embate entre Zé Dirceu e Roberto Jefferson não aconteceu, foi frio e previsível. E, como já dizia na Bíblia, precisamente em Eclesiastes, Nihil sub sole novum.

 

Não há nada de novo sob o sol. Zé Dirceu, como era o esperado, negou tudo e tentou de todas as maneiras desqualificar Roberto Jefferson. Com uma serenidade e calma notáveis, Dirceu foi claro e objetivo. Cirúrgico. Não deixou transparecer sua conhecida arrogância e seu também conhecido temperamento explosivo. Ele é um político profissional, no sentido conotativo e denotativo que as palavras carregam.

 

Sua humildade e calma foram obviamente percebidas pelos demais deputados e alguns até comentaram sobre o assunto. Foram poucos os deputados inquisidores que fizeram perguntas e/ou comentários úteis. Como é de praxe, muitos aproveitam as câmeras e os holofotes para divagaram sobre assuntos já esclarecidos e montam ali um palanque particular. Afinal, em um depoimento transmitido por muitas tevês e rádios, e acompanhando por muita gente, muitos deputados levam seu pedestal portátil. Lamentável.

 

Os questionamentos de Roberto Jefferson foram patéticos. Ele, como todo seu jeito hiperbólico e teatral, faz de tudo para enfatizar e valorizar certas passagens de seu discurso. Procura acuar e amedrontar o interlocutor por meio de seus gestos e seu tom de voz. Mas contra um político preparado como Zé Dirceu, essas artimanhas retóricas não produzem muitos efeitos. Dirceu não perdeu a calma em nenhum momento e nem sequer aparentou nervosismo. Roberto Jefferson não apresenta prova nenhuma e acusa o tempo todo, uma tática que depende muito do trabalho da imprensa. Pois quem vai atrás das histórias que Jefferson conta e das provas que ele precisa, é a imprensa. Ontem não foi diferente, Roberto Jefferson acusou Zé Dirceu de costurar, enquanto ministro da Casa Civil, um acordo com uma mega-empresa de telefonia portuguesa para ajudar financeiramente o PT e o PTB. Foi o único fato novo do dia. Resta esperar que coelho vai sair dessa cartola.

 

Eu, como já afirmei aqui no Pitacos, acredito que o Zé Dirceu está envolvido até o pescoço na história de empréstimos suntuosos e pagamentos escusos para parlamentares também escusos. Não é possível que o homem que ajudou a montar o partido, foi presidente, mandava e desmandava lá dentro, não sabia de nada. Todo mundo sabe do caráter centralizador e autoritário do Zé Dirceu. além do mais, Delúbio Soares e Sílvio Pereira eram homens de confiança do Dirceu.

 

Porém, o Zé Dirceu é inteligente o suficiente para não deixar rastros e provas soltas, ficando de fora do tabuleiro. Ele não é um peão, como um deputadozinho qualquer. Não é uma torre, como um Delúbio Soares. Não é um cavalo rompedor, como o Sílvio Pereira. Não é a rainha, uma das peças chave, que parece ser Marcos Valério. Zé Dirceu está acima disso tudo, mas ele também não é o rei. Quem é ele no jogo? Dirceu é o enxadrista por trás desse jogo sujo. Ele é o arquiteto, o pensador. E o rei? O rei que todos estão tentando proteger a qualquer custo, é ninguém menos que o próprio presidente Lula. O xeque-mate é uma possibilidade real, basta competência nas investigações e disposição política para passarmos por outro traumático processo de impeachment.

Escrito por Diego às 11:49:02
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Notícias da crise – IV

 

Pois é, meus amigos, a chapa continua quente em Brasília. Incandescente, para ser mais preciso. Recentemente, novos fatos, provas e depoimentos botaram ainda mais lenha na fogueira. O Marcos Valério percebeu que o PT está disposto a dar-lhe calote nas dívidas adquiridas através das empresas de publicidade. Esperto e sacana, o careca agiu rápido e já saiu atirando. Ameaçou levar para Brasília “quilos de documentos”, capazes de derrubar “metade da bancada governista”.

 

Depois do recado, veio a ação. Ontem a tal Renilda, mulher de Marcos Valério, depôs na CPI. Ela foi muito bem orientada, demonstrou uma fidelidade canina ao maridão, teve competência para tentar livrar a barra do Valério e jogou a bomba para o alto. Disse o que todo mundo já esperava o Zé Dirceu sabia sim dos empréstimos bancários feitos ao PT, usando as empresas de Valério.

 

Realmente, isso era esperado mesmo. Convenhamos, é quase impossível o Zé Dirceu não saber da história toda. O PT, percebendo que o barco está afundando mesmo, já soltou que a grana ilegal levantada foi usada “apenas” para financiar campanhas políticas, e que o mensalão não existe. Algo bem cínico, tipo: “todo mundo faz caixa 2”. Como se isso justificasse as falcatruas do partido.

 

Mais uma bomba. Os documentos provenientes do Banco Rural, como já definiu o relator da CPI, são “pólvora pura”. São tão importantes que estavam sob tutela de ninguém menos que o juiz Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal, a mais importante instância jurídica do país. Para bom entendedor, meia palavra basta. É obvio que os documentos são capazes de derrubar muita gente, pois neles há mais de 120 (cento e vinte!!!) nomes de pessoas que sacaram dinheiro das contas de Marcos Valério. É a prova do mensalão.

 

Pessoalmente, faço questão de frisar que é uma opinião pessoal, de alguém que acompanha a crise de fora, por meio de TV, jornais e blogs independentes. Acho pouco provável que o pagamento mensal com freqüência religiosa existiu. Porém, existiu sim a compra de deputados da base por meio de transações escusas e suntuosas. Muita gente encheu os bolsos sim, alguns muito mais de uma vez.

 

Mais um pitaco pessoal. Zé Dirceu, para mim, é o cabeça do esquema todo. Marcos Valério tem cinco contas publicitárias milionárias do governo federal. Quatro da época do governo FHC e mais uma (a da câmara) com o governo Lula. O careca foi coagido – comprado seria a melhor palavra – pelo cabeça. Algo assim: “Marcos, eu renovo suas quatro contas, te dou mais uma e você faz um favor para mim...” Vejam bem, não quero botar o Marcos Valério de vítima, pelo contrário, ele é cúmplice num esquema de corrupção gigantesco.

 

Outra reflexão minha. Sinceramente, quando o Zé Dirceu olha no espelho, penso que ele se considera acima do bem e do mal. Zé Dirceu, seguindo preceitos do velho, decadente e perigoso stalinismo, acha que os fins justificam os meios. Não importa o que você faz, o importante é onde você vai chegar. Seguiu as piores cartilhas marxistas. Cartilhas com métodos e práticas centralizadores, totalizadores, unilaterais e, principalmente, ingênuos. A trajetória brilhante e a carreira política gloriosa de Zé Dirceu merecem méritos, fez de tudo para pôr PT no governo e “o projeto do PT” em curso. E agora, faz de tudo para manter o PT no poder. Inclusive a confecção de um esquema de corrupção escabroso, nunca dantes visto, envolvendo empresas públicas, privadas, centenas de deputados, funcionários públicos, diretores de cargos de confiança, assessores e sabe-se lá quem mais.

 

Já está chegando a hora de pintarmos a cara, sairmos para a rua e batermos panela. Se continuar nessa toada, o Lula vai (e deve) cair sim. É inevitável, com que autoridade, moralidade e legalidade ele vai continuar seu governo? É o fim, o sonho acabou.

 

Em tempo: Por onde anda o vice-presidente José Alencar? Lembre-se de que ele assume no caso de uma renúncia ou impeachment. Notavelmente ele está distante da crise toda. Nem opinião na imprensa ele dá. Seria uma estratégia de se fazer de morto – como fez o discreto e esperto Itamar Franco na época dos escândalos que derrubaram o Collor – para assumir o governo com força total? Hipóteses, hipóteses. Ou, palavras, palavras, palavras; como diria um príncipe dinamarquês atormentado com a sede pelo poder em seu reino.



Escrito por Diego às 16:21:51
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Notícias da Crise - III

Ontem o Delúbio Soares (ex-tesoureiro do PT) depôs na CPI, e se não fosse o "habbeas corpus preventivo", ele sairia preso de lá. A estratégia de defesa do PT é clara e irracional. Eles atiram o Delúbio e o Sílvio Pereira (ex-secretário geral do partido) na fogueira e tentam salvar Genuíno, Zé Dirceu e o resto do partido...

 

O Delúbio assumiu "toda" a responsabilidade pelos empréstimos bancários através das empresas do Marcos Valério. Assumiu também o caixa 2 e disse que isso não era consentimento do partido. Então tá, ele empresta milhões, levanta outros milhões no caixa 2, financia campanhas com dinheiro vivo e tudo mais. Porém, segundo a defesa irracional, o presidente do PT (Genuíno) e o cara que mandava tanto ou mais que o presidente (o Zé Dirceu), não sabiam de nada. Conta outra...conta outra.

 

Ontem, a besta da mulher do Marcos Valério tentou fazer um saque de 1,8 milhões de reais no caixa do banco. Assim, sem mais nem menos. Nem teve o trabalho de chamar um gerente, quis tirar a "graninha" no caixa mesmo. É lógico que não deu certo, sua conta foi bloqueda e ela escapou da prisão com ajuda de advogados.

 

Outro que fez saques em nome das "agências de publicidade" (leia-se LAVANDERIAS) de Marcos Valério, foi o João Paulo Cunha, o deputado do PT,  ex-presidente da câmara. O cara fez os saques por intermédio de sua mulher. Falando em mullher, a perua da ex-mulher do Waldemar Costa Neto (líder do PL na câmara) deu um depoimento rico em detalhes ontem na CCJ - Comissão de Constituição e Justiça. Disse que o "mensalão" existe e que Waldemar e outros recebiam sim...

 

Há mais picaretas que faziam saques em nome das "agências" de Marcos Valério. O tesoureiro do PP, gente do PL, gente ligada ao PMDB e por aí afora... E assim seguimos chafurdando no mar de lama. Os porcos do poder nos tratam como burros. Qualquer semelhança com os porcos da "Revolução dos Bichos", de George Orwell, não é mera coincidência.



Escrito por Diego às 10:09:58
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Notícias da Crise - II

 

Acabei de assistir ao Jornal Nacional e tamanha quantidade de denúncias, escândalos e sujeira me deixaram muito chateado. O noticiário político virou noticiário policial. A impressão que eu tenho é que o país está implodindo, caindo aos pedaços. Já Londres está explodindo, voando pelos ares, juntamente com sangue e pedaços de carne humana. Todo ato de violência gratuita é injustificável. Violência e terror contra civis e inocentes, além de injustificável, é também uma covardia execrável. O capitalismo ocidental colhe, da pior maneira possível, os amargos frutos plantados durante anos disseminando exploração e injustiça. Por voltas que a vida dá, meu coração estava – e ainda está – em Londres, no olho do furacão. Ela está bem, nós estamos bem. Sobrevivendo, estarrecidos.

 

O Jornal Nacional de hoje foi o ocaso da política brasileira.

 

Novos fatos: o irmão do Genuíno (esqueci o nome dele) é deputado estadual no Ceará, e seu assessor foi preso em congonhas tentando embarcar com mais de 200 mil reais em malas e 100 mil dólares na cueca!!! Pode uma coisa dessas? Não soube explicar a origem e nem o destino da grana, disse que era de "vendas de verduras"...

 

A procuradoria do Rio de Janeiro apareceu com uma gravação telefônica entre auditoras do INSS que denuncia envolvimento do Amir Lando (ex-ministro da Previdência) e Zé Dirceu num esquema de corrupção escabroso que também envolve a FIERJ (que é a FIESP do Rio). Esse esquema teria começado ainda no governo FHC, com o Ornelas (ex-ministro), e continuado com o PT....

 

Mais uma: Hoje um deputado do PFL, que também é ex-diretor da TV Record e bispo da Universal, foi preso tentando embarcar com SETE malas lotadas de dinheiro. Estimam a quantia em mais de 6 milhões. Disse que era do dízimo... Mais tarde, já na PF de Brasília, onde ele estava preso e prestava depoimento, seis homens fortemente armados (com fuzis e o caralho!) foram presos nas imediações. Eram seguranças da Igreja Universal. Disseram que estavam lá para dar "assistência ao bispo preso". Tenebroso.

 

Estou triste e estarrecido, mas a vida segue



Escrito por Diego às 22:35:05
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Notícias da crise
Agora a cúpula do PT ruiu de vez. A Veja fez uma matéria mostrando um papel com a assinatura do Delúbio, do Genuíno e.... do Marcos Valério. O Valério foi avalista de um empréstimo bancário do PT em 2004 a até PAGOU uma das parcelas da dívida, mais de 300 mil reais. Um cara com contratos de 150 milhões com o governo, que retira 70 milhões em dinheiro vivo e faz o dinheiro sumir, não pode ser fiador e avalista do partido do governo. A história do Roberto Jefferson começa a fazer sentido.
 
Genuíno se saiu muito mal, disse que "assinou sem ler em confiança ao Delúbio". Ninguém, muito menos o presidente do partido, assina um papel de um empréstimo de mais de 2 milhões sem ler. O tal do Sílvio Pereira (secretário do PT) já caiu. Delúbio e Genuíno serão afastados, até o Lula já manifestou que toda a Executiva do partido deve ser afastada. E o Marcos Valério já pediu um Habbeas Corpus "preventivo" no supremo, ele tem medo de sair algemado na quarta-feira, quando vai depor novamente na CPI.
 
Ontem teve um Roda-Viva com o Genuíno e ele não me convenceu. Ficava fugindo das perguntas e reiterou que assinou o papel "sem ler", em confiança ao Delúbio. Em várias perguntas, ele falava assim: "Não cabe a mim responder, isso é com as investigações", ou "as investigações irão fundo nesse ponto", investigação era remédio para tudo...
 
Quando foi perguntado porque o PT e o Governo tentaram barrar a CPI e as investigações, ele fugiu e perdeu o rebolado. No final ele chorou, se emocionou, disse que ficou 5 anos preso, um ano sendo torturado e não abriu o bico. Ah, me esqueci de falar, entre outras coisas, apareceu um coronel sabe-se lá de onde e disse que o Genuíno dedurou muita gente enquanto estava preso. Roberto Jefferson, muito esperto, já aproveitou a situação das assinaturas no documento e fulminou, mais ou menos assim: "Vcs viram só? Dessa vez não precisou nem de tortura, o Genuíno já entregou o Delúbio..." Curiosidade: O Adriano Diogo estava presente no programa, como convidado.
 
A cúpula do PT ruiu e, muito provavelmente, nós não vamos ter em quem votar nas próximas eleições.
Fico triste com isso, pois quem sai perdendo é a gente. Nunca na minha vida inteira eu tinha visto tanta gente desacreditada e desiludida, dizendo: "são todos iguais", "político é tudo a mesma merda", "não adianta que não muda".
 
Quem sai perdendo é a democracia, dá a impressão que ela não funciona mesmo e nosso país será sempre uma merda de roubalheira livre e geral. Isso abre precedentes para o crescimento de loucos, fanáticos, extrema-direita e afins. Andam dizendo que com a chegada ao governo, o PT se perdeu e deu um tiro no pé. Acho que o tiro foi mais acima, na cabeça. Arrebentaram com o PT, o partido mais coerente que nós tínhamos.
Bom, é isso. Vamos sobrevivendo, aos trancos e barrancos.


Escrito por Diego às 12:09:49
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